Participantes do amor e da missão da Trindade

Design sem nome (5)
Pe. Silas de Oliveira, rcj

Somos frutos do transbordamento do amor Trinitário. O Pai ama o Filho e, nesse amor, temos o Espírito! Eis a mais sublime comunhão de amor a que somos chamados a participar, experienciar em nossa vida, em nossa história. Essa comunhão é transbordante de tal modo que cá estamos nós, em meio a toda criação, mas com o diferencial de desejarmos Deus, de o querermos, de fazermos experiência com Ele, de respondermos ao seu chamado de amor e a Ele nos configurarmos numa vida doada, sendo sinais de sua presença no mundo.

As Sagradas Escrituras nos dizem que a Trindade “nos fez pouco menor do que os anjos”[1]. Com um olhar que nos advém do Mistério Pascal, entendemos a grandiosidade da pequenez, o esplendor em ser o menor! Quanto menores formos, mais grandiosos na experiência da graça seremos. E é na nossa pequenez que o Senhor nos chama! Fica fácil entender, então, que, criados por Deus à sua imagem nesse mesmo amor, somos chamados a participar também de sua missão, contando com a sua graça que, à medida de nossa entrega, nos alcançará a semelhança, num chamado à perfeição.

Nesse chamado, lembra-nos a Igreja, é preciso sensibilidade para notar que o Senhor nos chama em nossa história, “cada um por seu caminho”[2], atento ao seu itinerário. Tal atenção se desdobra nos momentos particulares do despertar, nas oportunidades e acontecimentos vivenciados que ajudam a discernir, nos toques sutis desse mesmo Deus Trindade que nos levam a cultivar cada vez mais no coração esse chamado. E, claro, não se pode esquecer jamais das vezes em que Ele se fez presença através do acolhimento fraterno de inúmeros irmãos e irmãs que nos acompanharam e nos acompanham.

É o dinamismo da história da salvação na história particular de cada um, e nela toda essa comunhão do povo de Deus que, seguindo Cristo, difunde seu Reino e se prepara para com Ele viver um trato de amizade, fazendo a vontade do Pai por graça do Espírito. E isso, conforme nos diz Papa Francisco, “Deveria entusiasmar e animar cada um a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto único e irrepetível que Deus quis, desde toda a eternidade”[3]. Mas por vezes não é assim. Embora a grandiosidade da vida e do chamado, deparamo-nos com o desafio de um mundo cada vez mais insensível, hedonista, individualista, competitivo etc.

Conforme nos diz o Concílio, “o mundo atual apresenta-se assim simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio”, e é nessa realidade, por vezes conflituosa, fragmentada e disforme, que o Senhor nos chama, e nós responderemos nosso sim generoso ao Senhor.

E de fato é assim! Num mundo completamente acelerado, imerso no imediatismo digital, em que queremos tudo tão rápido de modo a não se “perder o tempo”, que Deus nos fala sutilmente, nos demonstra seu amor e nos chama à missão! No chão atual de nossa história, surgirão tantas vozes e opiniões que afetarão a nossa mente e o coração. Virão interrogações e dúvidas, mas não se esqueça um só segundo de que todos são chamados pelo Senhor e que ele sopra sobre nós o Espírito Santo, para iluminar as nossas trevas interiores e nos dar forças para corresponder à vocação para a qual fomos chamados.

Por isso é importante e necessário estar com Jesus, tornando verdadeira e perceptível a sua presença em nossas vidas. Não é só saber quem Ele é, mas é estar em contínua união que fortaleça o nosso sim diário! Conforme disse Papa Francisco, “é preciso tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de procurá-lo dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que esse convite não lhe diz respeito”.[4]

O Pai que outrora nos falou pelo seu Filho, pelo Espírito continua ainda a falar no mais sagrado do nosso interior, tornando ainda mais fortes os apelos do Verbo à participação na sua vida, como fráguas sentidas em nosso peito no ordinário da vida. E nós somos chamados a responder generosamente, num caminho de docilidade, servindo-o com alegria, com plena satisfação e também jubilosos.[5]

Assim, participantes do seu amor e missão, numa completa adesão e explícito sim, não ficaremos apáticos frente ao chão da nossa história, mas compreenderemos a genuína verdade de nossa condição humana e teremos clareza de nossa vocação. Por isso é preciso, conhecedores que somos Daquele que é o “Caminho, Verdade e Vida”[6] (onde quer que estejamos), sermos sinais desse amor Trinitário que nos reveste e nos dá força, a fim de que muitos outros irmãos e irmãs encontrem o sentido genuíno da vida. À medida que estivermos com Ele, entenderemos a grandeza da vida em que Ele nos fala, nos ama e nos chama.

Pe. Silas de Oliveira, rcj

Animador Vocacional, Colaborador da Revista Rogate e membro da Diretoria Executiva do IPV.


[1] Cf. Sl 8,6

[2] LG 11

[3] GeE 13

[4] EG 3

[5] Cf. Sl 99

[6] Cf. Jo 14,6

Veja mais